Amava, sempre amei o natal. Não eram só os presentes que, sinceramente, nunca vieram aos montes nem nada. Não era só a comida da vó, a rosca recheada da tia, o pai tocando violão até muito tarde, eu dançando em cima da mesa “Na boquinha da garrafa” sem dever nada pra ninguém – simplesmente porque eu não tinha tamanho pra me preocupar. Não. Era outra coisa e ao mesmo tempo era tudo isso junto, sabe como é? Euforia, ansiedade… Viajava uma semana antes pra casa da vó, só pra ir ficando pertinho do natal e curtir. Agora não. As coisas mudaram. São esses passos assim, que a gente vai dando sem fazer muita questão, pra notar a diferença só no final.
Antes a gente colocava a meia na janela, ia pisando fininho até a árvore de natal no meio da noite, só de curiosidade. Perguntava se o primo tava acordado e se ele achava que tinha sido bom menino o bastante pro papai Noel dar o que ele pediu. O primo até fazia exame de consciência, coitado. E eu ouvia, sem sono nenhum, imagina, como pode dormir uma criança que vai passar todo o dia seguinte brincando com o presente que esperou o ano todo? Bem capaz…
Depois de um tempo, a gente já desconfiava do papai-noel. Escrevia as cartas pra irmã mais nova não deixar de acreditar, mas a gente mesmo… sei não. Era melhor acreditar, no final, fazer o pedido e curtir mais a ceia, a festa, o amigo secreto, o corre-corre com os primos e capotar. No dia seguinte os presentes estariam lá e, se não fosse o que a gente pediu, ia ser algo legal porque era natal mesmo, não dava pra ser ruim. A mãe ganhava os panos de prato e os tapetes, que a vó mesmo fazia. O almoço era cheio de piadas que a gente não entendia e os adultos não repetiam, mas a gente brincava menos, eu acho. Eu, particularmente, comia mais. E como!
Depois a gente começou a ter preguiça nas decorações. E a curtir mais as outras confraternizações: amigos secretos de poucos reais e muitas risadas, entre os amigos e colegas de classe. A festa do trabalho da mãe, que normalmente tinha piscina e um monte de gente da nossa idade… O pisca-pisca ainda tava lá no jardim de casa, no pinheiro que a gente plantou um dia e que crescia muito a cada natal. Tinha um CD de músicas natalinas, o pinheirinho decorado na sala, as bolas, laços, estrelas, até a toalha de mesa tinha motivos natalinos… Mas os presentes a gente já começava a receber antes de viajar. E eles nunca mais ficaram em baixo da árvore. A gente começou a se preocupar com a roupa da festa, a ajudar a mulherada nos preparos da comida. Conversava com os primos em vez de brincar de verdade. E falava menos na revelação do amigo secreto… A gente dormia mais cedo até, mas não porque cansava. Alguns inclusive voltavam pras suas casas pra dormir mais confortáveis. Outros, depois de um tempo só mandavam os presentes e viajavam pra outro lugar. A gente acostumou. Sem achar bonito.
Hoje, aqui na minha rua, algumas casas ainda têm a iluminação de natal, que eu comecei a achar meio brega. Meu pinheiro tá pelado, eu não peço mais nada e dou presentes com muito mais gosto, é verdade. Mas a festa, de fato, não faz mais a minha cabeça. Sei lá o que aconteceu. A cidade toda, esse ano, tá me parecendo menos iluminada, eu não tenho nada pra pedir pro papai Noel, nem papai Noel eu tenho mais, eu acho. Os presentes estão diferentes também, o amigo secreto, a ceia… a gente.
Eu nunca dei bola pra esse papo de natal ser época de bondade simplesmente porque eu não acredito que exista época pra isso. Também não saia espumando e apontando a hipocrisia alheia. Mas é que agora as pessoas nem disfarçam mais, sabe. Nem no natal. Nem na família. Nem em lugar ou época nenhuma… O natal era sincero, durava muito mais que o dia 24/25. E mesmo que a família não fosse perfeita, a gente tava lá. Fazendo mil pratos, elogios, abraços, agradecimentos e até as orações.
Lembro de um natal na casa da tia Edna. Uma família de amigos dela tinha sido assaltada e estava sendo mantida em “cativeiro” pelos assaltantes. Na noite de natal. Os homens saíram na tentativa de ajudar a polícia, as mulheres fizeram círculos de oração e eu torci tanto pra que nada de pior acontecesse… E não aconteceu realmente. Foi incrível pra minha compreensão de dez anos de idade ver o bem vencendo no natal
Eu nem imagino mais o que os vizinhos fazem nas suas ceias. No natal dos Cunha, agora, tem mais priminhos, priminhas, maridos, esposas, namorados, agregados… Mas… Não sei… Ele também tá mais vazio. E eu sinto muito por isso. A minha casa tem só o pinheirinho da sala e panetones nos cafés da manhã. Eu não passo mais o natal com a mãe, por motivos de força maior. Nem o Ano-novo com o pai, que é outro assunto. Sei lá… As festas de fim de ano andam, agora, com cara de expediente. A gente praticamente ta batendo cartão em troca de pequenas recompensas. Acabou sabe. E eu amava, amava muito o natal.