Cianureto

Você desculpe a honestidade do meu corpo

E essa coisa que os músculos não fingem.

É que agora o sol nasce à minha esquerda,

Segue um dia sobre mim

E se põe do outro lado

Não mais exausto do que eu

– que sinto todo e cada osso

que não suporto outra voz

que finjo sempre que não vi

e sinto azar de estar aqui.

 

Você desculpe a violência dessas sílabas

E dessa coisa que eu salvava pra depois.

O coração é mais a pausa do que o pulso,

Esse trabalho repetido que se paga pra estar vivo.

-e ainda é frio

como a minha mão direita

anestesiada e imóvel

no auge de um inverno

que nunca foi embora

porque não pode escolher.

 

E me desculpe se até hoje eu não havia dito nada

Perdoa essa lástima que eu carrego de adereço.

Eu perdi a minha fé ainda era muito cedo

Eu vi de toda gente as costas e cheguei até aqui.

Conhecendo adeus que dura

até logo que é sem volta

-E penso, talvez por isso,

que o futuro é uma promessa

que não nasceu pra se cumprir

isso por falta de interesse

do que estava ali por vir.

 

Você desculpe a desordem dessa mesa de café

E dessa coisa bagunçada que eu espalho entre os silêncios

É que faz muito eu espero o homem que virá me responder

se há algo que se faça dessa vida que eu rejeito

-pra que assim eu possa dá-la

a alguém de mais talento

que me redima, em memória,

do desperdício que eu fui.

 

 

 

Poema de verão

Cuida do teu frio
Porque o verão chega depressa
e ele não é uma catástrofe.
Mas veja
Esse frio agora sentes, esse frio há de passar.

E tuas roupas mais pesadas
-ou as peças que te faltam-
as neblinas à tua volta
O que elas fazem por você?

(só você há de saber)
Mas sem ouvir resposta, o verão há de chegar
e vai levá-las todas e não vai ser violento.
E no descuido que vem junto, você não vai acreditar

Que são agora outros tempos
que já voaram tantos anos
que o frio não mais existe
que foi tudo uma ilusão.

Não… Cuida do teu frio que ele é real!

Ama-o como quem sabe que os amores vão embora
Sofra-o como quem, mais que saber, já sentiu.
Cuida do teu frio, embora as flores que não brotam.
Cuida, cuida do teu frio.

É preciso, em tempos mudos,
amar as cinzas que flutuam
– Pra depois raiar um sol
e então sobreviver.

29 de Abril de 2015

Neste momento a cidade desdorme.
Cerra as janelas, abaixa as cortinas, passa a tranca nas portas, silêncio incólume.
Quem tem coração não dorme.
Pois as conversas não cessam de subir e descer as escadas,
gotejam do teto, escorrem nas paredes.
se reviram no beliche de cima, espetam o colchão.

A polícia não nos defende.

Não há mais óleo nas engrenagens.
Há sangue, suor e lágrimas.
Explodindo os canos da sala.
Em abraços.
Interrompidos por cassetetes.

É dia do trabalhador e não há festa.
É dia da educação e não há festa.
É dia.
E atiram gases que nos sequestram as lágrimas, entopem de fumaça a nossa visão.
Os ouvidos que nos restaram dizem bomba.
As vozes que nos desejam vivos dizem corra.
Do lado de cá ainda existe coração.

Ao meu lado um companheiro abre a garrafa.
Em lugar de brindar, aspiramos vinagre.
Amanhã até as bancas de jornal irão dizer que só as nossas mãos podem acender o sol.

Sem título (13.03.2016)

Que as próximas gerações perdoem aquilo que hoje não fazemos. Que não cometam a injustiça de nos achar preguiçosos, burros os qualquer coisa. Dormir, hoje, é um desafio. Cada impossibilidade do mundo nos mantém de olhos insones, com a força de mil sóis. Não fazemos nada porque extrapolamos os limites das nossas capacidades. O barco vai cheio de loucos e os loucos sonhadores, com muita sorte, são obrigados a servir os canapés. Os menos afortunados são obrigados a achar-se na caldeira, queimando contra a vontade a lenha que faz o barco andar. Outros, em situação ainda pior, se jogam do convés e, enfim, nenhum de nós jamais assumiu ou teve chance de assumir o leme, apontar a direção.

Trocamos segredos nos corredores, confabulamos e dividimos o conhaque. Contamos nossas histórias a fim de que juntas elas tenham força de existir um dia mais. Decoramos à moda as nossas estalagens, compartilhamos nossos livros e aquilo que sabemos de ouvir falar. E algumas vezes nos encorajamos mais, falamos em melhor tom, assumimos o palco e arranhamos a gala. Algumas vezes abandonamos os nossos postos e conseguimos constranger! Nós escrevemos sobre esses dias e conversamos. Como conversamos…

Mas as nossas costas também doem, as nossas crianças em algum lugar do mundo também precisam comer. E assim vamos dormir, às vezes, ressecados, pensando se tornamo-nos os nossos calos. Ou se somos, enfim, aquelas poucas vezes em que conseguimos, paramos o barco, decapitamos o capitão. Abandonamos a cama todos os dias sem saber, ao menos, se somos os calos que se talham em nós ou se somos o caos que talhamos no tempo.

Nesses dias de incerteza, só fazemos pedir que as próximas gerações nos perdoem. Só fazemos pedir que nos encorajem e nos entendam. Somos, no posto onde estamos, nas horas dos dias, nos feriados dos anos, sonhadores. O mundo que desejamos, com força o desejamos, não está pronto. E por isso não nos repitam, nem nos derrubem, não cedam, mas juntem. Virar esse barco carecerá, e disso sabemos bem, de cada pedaço de força lançado das mãos quem ainda vem.

Por fora

Sinto falta de escrever prosa.
Cada mulher nessa casa está quebrada à sua maneira.
Perco um talento por dia – e isso é só uma parte
Só uma parte pequena da bagagem que é preciso encaixotar.

Os cadernos nunca foram tão brancos
A sala nunca esteve tão vazia
E eu nunca acendi tantos cigarros.
– Implorando que alguém me acorde,
enxotando qualquer um que ouse.

Recorro, na estante, aos meus livros favoritos
Desejo recomeçá-los, como se recomeçando  pudesse voltar no tempo
à idade que tinha quando os li – ou outra idade que fosse, não importa…
E é claro que nada acontece.

Carrego a ingênua certeza de que há muita vida pela frente  – e sinto, mais que qualquer outra coisa, o peso da obrigação de vive-la.  Quem sabe como? Quem foi consultado?

Cada mulher nessa casa está quebrada à sua maneira.
E os azulejos estão limpos.
E das janelas entra ar.

 

Prece número 3

Chegará esse dia, chegará

Em que nós vamos ser melhores, chegará

Em cada festa uma rotina, até cansar

e o amor, destino certo, florescerá, acontecerá, virá será.

 

Mas o caminho é uma subida, e até lá

a esperança agarra a gente – muito mais que a gente a ela.

ela pede, por favor, não me abandone à tragédia

e ela berra, igual a terra, quem me cuide (por favor!).

 

Mas feito o gato que espreita e desvia amiúde:

as palavras correm doidas cada vez que são lembradas

e se escodem nesse mundo, reformado em dureza

que petrifica os corações desprevenidos e amansados.

 

Os apertados ainda batem, entram em coro num trovão

que cai dos céus e enraíza a sinfonia que nos une.

Entre tanta reticência, quem questiona um mundo são,

se somos poucos na torcida ansiosa pelo caos?

 

Mas chegará esse dia, ouvi dizer que chegará

Um brinde ao novo que, à força, desde já se ressuscita

para rasgar esse  silêncio, cancerígeno, feito em sangue.

E mudar, fora do rio, a vida que nunca mais volta.

 

 

A loucura que nos une, fermenta dentro desse copo

E eu morri tanto, tantas vezes, que não podia estar mais sóbria

O futuro ainda é turvo, e isso é em tudo o nosso bem

Juntem as borras e as cartas, tudo e nada vai servir.

 

É que antes disso eu nasci, e desde lá muito mudou

eu li o sol, e vi a lua e tudo mais que permanece

Eu não prometo, eu não insisto. Da sua parte eu nada peço.

De minha parte, eu sou da água, não me maltrate o coração.

 

 

Quinta-feira, 23

A velha não mordeu o cachorro, mas às seis horas da segunda já não faria diferença. O jornal, a internet, o metrô, o desemprego, essa crise, esse homens, o Cunha, o custo do pão… Reblogar, compartilhar, enfezar-se antes dos outros, e essas bocas que só calam pra escutar outra tragédia. E repeti-la, piorada, à mais surda multidão. Que de tão surda, berra mais, e não há paz com tantos mísseis.
Não importa se é virtual essa janela que eu abro, eu abraço muita gente desejando estar errada. O mundo foi feito oval pra quicar sem ter problema, e eu acho que essa ladeira virou parte do meu corpo. Eu berraria “calem a boca” se isso fosse resolver. Mas caso eu grite, ao contrário, há um repertório de ofensas reservado pra quem pensa que tem chance vencer.
(Fora que a culpa é meio outra, fazer silêncio não tem por quê.)
Eles riem do meu prato, do que eu fiz com o meu cabelo, do que eu chamo de trabalho, desse corpo meio errado que não cabe no espelho. Não há lugar nesse planeta onde não me sinta acuada. Minhas roupas foram feitas pra eu me sentir desconfortável. A violência previamente eu já nasci para temer. E o que eu ouço para em mim – eu não tenho a quem correr.
Porque eles seguem na batalha e devastam por diversão cada metro desse mundo que dá sinais de desistência. Insaciáveis, não matam os outros porque as heranças não iriam pra si. E do meu quarto, bem trancado, eu me salvo do verão. Pois todo o resto me atinge forte, feito eu viesse por opção.
Quem tem, por favor, mostre um jeito de não enlouquecer nesse mundo. A linha do tempo que eu não criei tem nome em inglês e conta o tempo em segundos. As notícias se repetem, seu critério é o absurdo, frame a frame, corte seco, trilha tensa, berro mudo.
Quem tem, por favor, mostre um jeito de não enlouquecer nesse mundo. Antes que eu me feche pra sempre ou alguém resolva outra vez mudar de assunto.