29 de Abril de 2015

Neste momento a cidade desdorme.
Cerra as janelas, abaixa as cortinas, passa a tranca nas portas, silêncio incólume.
Quem tem coração não dorme.
Pois as conversas não cessam de subir e descer as escadas,
gotejam do teto, escorrem nas paredes.
se reviram no beliche de cima, espetam o colchão.

A polícia não nos defende.

Não há mais óleo nas engrenagens.
Há sangue, suor e lágrimas.
Explodindo os canos da sala.
Em abraços.
Interrompidos por cassetetes.

É dia do trabalhador e não há festa.
É dia da educação e não há festa.
É dia.
E atiram gases que nos sequestram as lágrimas, entopem de fumaça a nossa visão.
Os ouvidos que nos restaram dizem bomba.
As vozes que nos desejam vivos dizem corra.
Do lado de cá ainda existe coração.

Ao meu lado um companheiro abre a garrafa.
Em lugar de brindar, aspiramos vinagre.
Amanhã até as bancas de jornal irão dizer que só as nossas mãos podem acender o sol.

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