Cianureto

Você desculpe a honestidade do meu corpo
E essa coisa que os músculos não fingem.
É que agora o sol nasce à minha esquerda,
Segue um dia sobre mim
E se põe do outro lado
Não mais exausto do que eu
- que sinto todo e cada osso
que não suporto outra voz
que finjo sempre que não vi
e sinto azar de estar aqui.

Você desculpe a violência dessas sílabas
E dessa coisa que eu salvava pra depois.
O coração é mais a pausa do que o pulso,
Esse trabalho repetido 
que se paga pra estar vivo.
-e ainda é frio
como a minha mão direita
anestesiada e imóvel
no auge de um inverno
que nunca foi embora
porque não pode escolher.

E me desculpe se até hoje eu não havia dito nada
Perdoa essa lástima que eu carrego de adereço.
Eu perdi a minha fé ainda era muito cedo
Eu vi de toda gente as costas e cheguei até aqui.
Conhecendo adeus que dura
até logo que é sem volta
-E penso, talvez por isso,
que o futuro é uma promessa
que não nasceu pra se cumprir.

Você desculpe a desordem dessa mesa de café
E dessa coisa bagunçada que eu espalho entre os silêncios
É que faz muito eu espero o homem que virá me responder
se há algo que se faça dessa vida que eu rejeito
-pra que assim eu possa dá-la
a alguém de mais talento
que me redima, em memória,
do desperdício que eu fui.

 

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