Cartão-ponto

Deixo a cama todo dia antes do sol. Pés descalços no chão frio, enfrento o espelho e outros mortos no elevador. Venço cada hora do dia feito não latejasse fundo essa vontade de sumir.

Eu resisto. Imerso em covardia, em sorrisos e bom dia. Eu não digo. Mas eu queria que 1/3 do mundo acabasse, que o outro terço viajasse pra marte e, o resto, que vire ilha deserta de um continente que não seja esse aqui. Eu não vivo. E por mim todas as pessoas podiam sumir. Exatamente agora.

As pessoas que eu amo também, que não fique ninguém! Nem elas, nem seus prazos a cumprir, nem as reuniões de feriado, que sumam calendários e as roupas da moda. Isso e tudo mais que eu pareço por fora. Barrem os ponteiros agora, caso ainda haja tempo de reconstruir.

E se não houver, sinto dizer, mas isso aqui é um assalto, a realidade foi sequestrada e a vida, quando deu o cano do mundo, deixou claro seu recado: corram rápido, que o caminho da felicidade é uma subida – mas o primeiro que tentar não vai ter um só que lhe puxe a mão, seja qual for a tentativa.

Foi assim que a vida foi. Eu não vi, mas tenho provas. Porque eu saio da coberta todo dia antes do sol e sei que abandono a cama para outra vez não encontrar o seu sentido. Eu poderia. Mas o café da minha casa se parece cada dia mais com o que é feito no trabalho, a minha roupa anuncia: eu encarnei um empregado, o jornal chegou mais cedo, só leio o classificado. Eu me entreguei. Porque o radialista desejou bom sábado, enquanto eu engolia um pão mofado, confabulando uma desculpa crível que justificasse meu atraso.

Hoje é dia de vida. E não restou a final gota pra inventar um intervalo.

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