Sem título

Eu estou vivendo esse tempo, é verdade, onde avesso e direito são já a mesma coisa. Como são a mesma coisa o dentro e o fora, o penteado e o desfeito, o todo e a coisa nenhuma. Podia, podia ser o momento mais lindo de toda a minha vida e eu podia brilhar. Mas em mim essa confusão se imprime cinza, opaca, esfumaçada. Um breu.
Eu estou vivendo esse tempo, é verdade, onde os homens se esforçam muito para fazer o caminho de casa. Dão cada passo rezando fundo pra que ela ainda esteja lá quando chegar. E quando a encontram, porque eles encontram, vacilam sofridamente na soleira de suas portas. Nenhum deles sabe se deseja de fato entrar.
Entram porque não poderiam, não por escolha, voltar àquele lugar. Eles amam as suas crianças, sentem ainda o gosto da comida. Sabem, ao fim do dia, que as coisas permanecem todas em seu devido lugar.
E isso, que destoa em tudo da confusão que somos nós, que mantém abertos os nossos olhos na madrugada, é isso, precisamente, o que nos apavora.

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