Sem título

I
Que a vida não me atrapalhe as lágrimas, isso já me basta. Que de todo o caos, de toda a festa e da revolta que eu sou, haja ainda esse lugar onde a palavra colo, quando ecoe, não ecoe no vazio e tenha chance de escorrer. Despudorada, como são as crianças que nos lembram a importância da alegria. E salgada, como é o mar quando nos espanca em qualquer parte desse corpo.

Desse corpo, sim, que nesses dias ele é quase tudo o que nos resta. Ele, sua casca, e poucas outras coisas. Sem adjetivo que descreva, sem etiqueta que explique, sem que a natureza se dê conta, até. Esse corpo sobra porque é preciso sentir ainda alguma coisa, qualquer coisa, pra depois descansar delas.

II
Sou agora, depois de tudo o que ainda não passou, um bicho de outro tipo. De um tipo que, em lugar de envelhecer, vai ficando menos dócil – mas não muito arredio.

Não, isso não é uma doença nem nenhuma moda nova. E por favor não se preocupe, porque eu já me acostumei. Com tempo, e desde que a vida não me negue esse direito, eu devolvo as peças cada uma a seu lugar, ainda que um lugar novo.

Com tempo e paciência, aliás, é que se aprende um jeito bom de ficar velho. E essa me parece, por enquanto, a melhor justificativa que um inexperiente como eu consegue dar. Um jeito meio longo, eu concordo, de dizer que vai passar. Uma pausa.

E não muito mais que isso.

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