Sem título

Eu estou vivendo esse tempo, é verdade, onde avesso e direito são já a mesma coisa. Como são a mesma coisa o dentro e o fora, o penteado e o desfeito, o todo e a coisa nenhuma. Podia, podia ser o momento mais lindo de toda a minha vida e eu podia brilhar. Mas em mim essa confusão se imprime cinza, opaca, esfumaçada. Um breu.
Eu estou vivendo esse tempo, é verdade, onde os homens se esforçam muito para fazer o caminho de casa. Dão cada passo rezando fundo pra que ela ainda esteja lá quando chegar. E quando a encontram, porque eles encontram, vacilam sofridamente na soleira de suas portas. Nenhum deles sabe se deseja de fato entrar.
Entram porque não poderiam, não por escolha, voltar àquele lugar. Eles amam as suas crianças, sentem ainda o gosto da comida. Sabem, ao fim do dia, que as coisas permanecem todas em seu devido lugar.
E isso, que destoa em tudo da confusão que somos nós, que mantém abertos os nossos olhos na madrugada, é isso, precisamente, o que nos apavora.

Sem título

I
Que a vida não me atrapalhe as lágrimas, isso já me basta. Que de todo o caos, de toda a festa e da revolta que eu sou, haja ainda esse lugar onde a palavra colo, quando ecoe, não ecoe no vazio e tenha chance de escorrer. Despudorada, como são as crianças que nos lembram a importância da alegria. E salgada, como é o mar quando nos espanca em qualquer parte desse corpo.

Desse corpo, sim, que nesses dias ele é quase tudo o que nos resta. Ele, sua casca, e poucas outras coisas. Sem adjetivo que descreva, sem etiqueta que explique, sem que a natureza se dê conta, até. Esse corpo sobra porque é preciso sentir ainda alguma coisa, qualquer coisa, pra depois descansar delas.

II
Sou agora, depois de tudo o que ainda não passou, um bicho de outro tipo. De um tipo que, em lugar de envelhecer, vai ficando menos dócil – mas não muito arredio.

Não, isso não é uma doença nem nenhuma moda nova. E por favor não se preocupe, porque eu já me acostumei. Com tempo, e desde que a vida não me negue esse direito, eu devolvo as peças cada uma a seu lugar, ainda que um lugar novo.

Com tempo e paciência, aliás, é que se aprende um jeito bom de ficar velho. E essa me parece, por enquanto, a melhor justificativa que um inexperiente como eu consegue dar. Um jeito meio longo, eu concordo, de dizer que vai passar. Uma pausa.

E não muito mais que isso.

Exaustão

Falta, sobre essa cama e ainda, um beijo de amor. Como na maçaneta da sala falta a coragem de partir. A mão indecisa, a boca seca, o peito em lamaçal, um corpo estirado no sofá – por falta de gesto melhor que evidencie a inexpressão.

– Não morreu.

Na falta de energia elétrica, acende outro cigarro e odeia honestamente como toda crônica triste acaba citando qualquer vício que ilustre o desespero. O problema, dessa vez, é que é verdade… Na falta de droga mais pesada, o pensamento segue sem freio e não há ser no mundo que se sinta confortável no calvário de aguardar a chegada do elevador.
Fazer as malas, percebe agora, é muito mais simples do que ir embora. Você sabe, aliás, dessa sensação. Você também esperou alguém que lhe interrompesse, pausa simples, qualquer coisa que adiasse essa confusão. Pois se você não admite, saiba que eu esperei… E enquanto pousa os olhos sobre este papel tenha ciência de que, no que toque a isso, nenhum de nós está sozinho – ainda que se sinta.
Eu ouvi, esses dias, um grupo de colegiais profundamente tristes, sem os burburinhos habituais, sem as saias que se espalhassem com o vento ou os cabelos soltos colados no batom. Tristes como quem sabe que cresceu, elas se perguntavam se o fim do mundo não estaria, agora, mais próximo do que estava antes. Porque, afinal, se os ônibus estão mais próximos de chegar quanto mais se espera por eles, a lógica devia se aplicar.
Eu concordei – e resolvi ir pra casa caminhando porque é devastador se sentir parte de um grupo.

Falta, sobre essa cama e ainda, um beijo de amor. Como na maçaneta da sala falta a coragem de partir. Como no tic no relógio falta uma catarse qualquer que mude o rumo de todas as coisas. Como no horizonte do mundo falta algo, com mais coragem que eu e você, que nos tire logo desse lugar.

Something old, something blue

Eu começo esse texto sem saber muito por onde. Eu não sei se agradeço o que, eu espero, deve estar pra acontecer. Eu não sei se enumero os percalços até aqui. Eu vivi. E isso é basicamente o que há pra se dizer, sobre quem morre ou sobre quem permanece vivo, nesse caminho que a gente traça enquanto o caos nos atravessa. Eu vivi.

II
Eu tenho medo de ficar feliz antes da hora – mais medo, aliás, do que o medo que eu sinto de perder a hora quando a felicidade passar. Porque, você sabe, isso também acontece.
Eu amei um homem, já faz tempo, e ele me amou de volta com seus olhos negros e fundos de quem nasceu no mar. Ele me amava e eu, tendo só a inabilidade como minha companheira, sofri. Sofri como a mais infeliz das mulheres por quase todos os nossos dias, de uma angústia sem nome, uma ânsia sem forma. De medo.
Carreguei por dias todas as certezas do mundo, mas carreguei com mais força a certeza de que logo chegaria o meu dia de ser triste. E eu acertei.
Esse homem foi embora aos poucos e eu também não lhe pedi que ficasse – embora quisesse. Porque é assim que cresce, como uma flor que a gente cuida, o medo de ser feliz. Ele nos apavora, mas nos apavora menos do que o tamanho da felicidade quando ela dá sinais de que vai chegar.

III
Eu tenho medo dos meus planos e do que o futuro me reserva sem considerar minha vontade. Eu sinto dor de não poder gritar e no silêncio de cada noite eu sei, eu realmente sei que está mais próxima que antes a minha hora de ir embora – ou explodir.
E essa hora vai chegar, mas não agora.
Agora eu preparo a terra do meu verão. Aparo as arestas dos meus desejos, não para dominá-los, porque eu não posso, mas para que permaneçam fortes quando chegar a boa estação. Eu invento, enquanto faço, a receita da minha tradição e eu não sei de nada. Eu não conheço nada. Eu não pertenço a lugar nenhum e até hoje cuido de não ficar feliz antes da hora.
É porque antes dos começos e antes do ponto final, que são já pra mim a mesma coisa, eu aprendi pouco. Mas aprendi a não chorar hoje pelos pedaços que eu ainda não perdi.

Cartão-ponto

Deixo a cama todo dia antes do sol. Pés descalços no chão frio, enfrento o espelho e outros mortos no elevador. Venço cada hora do dia feito não latejasse fundo essa vontade de sumir.

Eu resisto. Imerso em covardia, em sorrisos e bom dia. Eu não digo. Mas eu queria que 1/3 do mundo acabasse, que o outro terço viajasse pra marte e, o resto, que vire ilha deserta de um continente que não seja esse aqui. Eu não vivo. E por mim todas as pessoas podiam sumir. Exatamente agora.

As pessoas que eu amo também, que não fique ninguém! Nem elas, nem seus prazos a cumprir, nem as reuniões de feriado, que sumam calendários e as roupas da moda. Isso e tudo mais que eu pareço por fora. Barrem os ponteiros agora, caso ainda haja tempo de reconstruir.

E se não houver, sinto dizer, mas isso aqui é um assalto, a realidade foi sequestrada e a vida, quando deu o cano do mundo, deixou claro seu recado: corram rápido, que o caminho da felicidade é uma subida – mas o primeiro que tentar não vai ter um só que lhe puxe a mão, seja qual for a tentativa.

Foi assim que a vida foi. Eu não vi, mas tenho provas. Porque eu saio da coberta todo dia antes do sol e sei que abandono a cama para outra vez não encontrar o seu sentido. Eu poderia. Mas o café da minha casa se parece cada dia mais com o que é feito no trabalho, a minha roupa anuncia: eu encarnei um empregado, o jornal chegou mais cedo, só leio o classificado. Eu me entreguei. Porque o radialista desejou bom sábado, enquanto eu engolia um pão mofado, confabulando uma desculpa crível que justificasse meu atraso.

Hoje é dia de vida. E não restou a final gota pra inventar um intervalo.

Cianureto

Você desculpe a honestidade do meu corpo
E essa coisa que os músculos não fingem.
É que agora o sol nasce à minha esquerda,
Segue um dia sobre mim
E se põe do outro lado
Não mais exausto do que eu
- que sinto todo e cada osso
que não suporto outra voz
que finjo sempre que não vi
e sinto azar de estar aqui.

Você desculpe a violência dessas sílabas
E dessa coisa que eu salvava pra depois.
O coração é mais a pausa do que o pulso,
Esse trabalho repetido 
que se paga pra estar vivo.
-e ainda é frio
como a minha mão direita
anestesiada e imóvel
no auge de um inverno
que nunca foi embora
porque não pode escolher.

E me desculpe se até hoje eu não havia dito nada
Perdoa essa lástima que eu carrego de adereço.
Eu perdi a minha fé ainda era muito cedo
Eu vi de toda gente as costas e cheguei até aqui.
Conhecendo adeus que dura
até logo que é sem volta
-E penso, talvez por isso,
que o futuro é uma promessa
que não nasceu pra se cumprir
isso por falta de interesse
do que estava ali por vir.

Você desculpe a desordem dessa mesa de café
E dessa coisa bagunçada que eu espalho entre os silêncios
É que faz muito eu espero o homem que virá me responder
se há algo que se faça dessa vida que eu rejeito
-pra que assim eu possa dá-la
a alguém de mais talento
que me redima, em memória,
do desperdício que eu fui.

 

Poema de verão

Cuida do teu frio
Porque o verão chega depressa
e ele não é uma catástrofe.
Mas veja
Esse frio agora sentes, esse frio há de passar.

E tuas roupas mais pesadas
-ou as peças que te faltam-
as neblinas à tua volta
O que elas fazem por você?

(só você há de saber)
Mas sem ouvir resposta, o verão há de chegar
e vai levá-las todas e não vai ser violento.
E no descuido que vem junto, você não vai acreditar

Que são agora outros tempos
que já voaram tantos anos
que o frio não mais existe
que foi tudo uma ilusão.

Não… Cuida do teu frio que ele é real!

Ama-o como quem sabe que os amores vão embora
Sofra-o como quem, mais que saber, já sentiu.
Cuida do teu frio, embora as flores que não brotam.
Cuida, cuida do teu frio.

É preciso, em tempos mudos,
amar as cinzas que flutuam
– Pra depois raiar um sol
e então sobreviver.