29 de Abril de 2015

Neste momento a cidade desdorme.
Cerra as janelas, abaixa as cortinas, passa a tranca nas portas, silêncio incólume.
Quem tem coração não dorme.
Pois as conversas não cessam de subir e descer as escadas,
gotejam do teto, escorrem nas paredes.
se reviram no beliche de cima, espetam o colchão.

A polícia não nos defende.

Não há mais óleo nas engrenagens.
Há sangue, suor e lágrimas.
Explodindo os canos da sala.
Em abraços.
Interrompidos por cassetetes.

É dia do trabalhador e não há festa.
É dia da educação e não há festa.
É dia.
E atiram gases que nos sequestram as lágrimas, entopem de fumaça a nossa visão.
Os ouvidos que nos restaram dizem bomba.
As vozes que nos desejam vivos dizem corra.
Do lado de cá ainda existe coração.

Ao meu lado um companheiro abre a garrafa.
Em lugar de brindar, aspiramos vinagre.
Amanhã até as bancas de jornal irão dizer que só as nossas mãos podem acender o sol.

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Sem título (13.03.2016)

Que as próximas gerações perdoem aquilo que hoje não fazemos. Que não cometam a injustiça de nos achar preguiçosos, burros os qualquer coisa. Dormir, hoje, é um desafio. Cada impossibilidade do mundo nos mantém de olhos insones, com a força de mil sóis. Não fazemos nada porque extrapolamos os limites das nossas capacidades. O barco vai cheio de loucos e os loucos sonhadores, com muita sorte, são obrigados a servir os canapés. Os menos afortunados são obrigados a achar-se na caldeira, queimando contra a vontade a lenha que faz o barco andar. Outros, em situação ainda pior, se jogam do convés e, enfim, nenhum de nós jamais assumiu ou teve chance de assumir o leme, apontar a direção.

Trocamos segredos nos corredores, confabulamos e dividimos o conhaque. Contamos nossas histórias a fim de que juntas elas tenham força de existir um dia mais. Decoramos à moda as nossas estalagens, compartilhamos nossos livros e aquilo que sabemos de ouvir falar. E algumas vezes nos encorajamos mais, falamos em melhor tom, assumimos o palco e arranhamos a gala. Algumas vezes abandonamos os nossos postos e conseguimos constranger! Nós escrevemos sobre esses dias e conversamos. Como conversamos…

Mas as nossas costas também doem, as nossas crianças em algum lugar do mundo também precisam comer. E assim vamos dormir, às vezes, ressecados, pensando se tornamo-nos os nossos calos. Ou se somos, enfim, aquelas poucas vezes em que conseguimos, paramos o barco, decapitamos o capitão. Abandonamos a cama todos os dias sem saber, ao menos, se somos os calos que se talham em nós ou se somos o caos que talhamos no tempo.

Nesses dias de incerteza, só fazemos pedir que as próximas gerações nos perdoem. Só fazemos pedir que nos encorajem e nos entendam. Somos, no posto onde estamos, nas horas dos dias, nos feriados dos anos, sonhadores. O mundo que desejamos, com força o desejamos, não está pronto. E por isso não nos repitam, nem nos derrubem, não cedam, mas juntem. Virar esse barco carecerá, e disso sabemos bem, de cada pedaço de força lançado das mãos quem ainda vem.

Por fora

Sinto falta de escrever prosa.
Cada mulher nessa casa está quebrada à sua maneira.
Perco um talento por dia – e isso é só uma parte
Só uma parte pequena da bagagem que é preciso encaixotar.

Os cadernos nunca foram tão brancos
A sala nunca esteve tão vazia
E eu nunca acendi tantos cigarros.
– Implorando que alguém me acorde,
enxotando qualquer um que ouse.

Recorro, na estante, aos meus livros favoritos
Desejo recomeçá-los, como se recomeçando  pudesse voltar no tempo
à idade que tinha quando os li – ou outra idade que fosse, não importa…
E é claro que nada acontece.

Carrego a ingênua certeza de que há muita vida pela frente  – e sinto, mais que qualquer outra coisa, o peso da obrigação de vive-la.  Quem sabe como? Quem foi consultado?

Cada mulher nessa casa está quebrada à sua maneira.
E os azulejos estão limpos.
E das janelas entra ar.

 

Prece número 3

Chegará esse dia, chegará

Em que nós vamos ser melhores, chegará

Em cada festa uma rotina, até cansar

e o amor, destino certo, florescerá, acontecerá, virá será.

 

Mas o caminho é uma subida, e até lá

a esperança agarra a gente – muito mais que a gente a ela.

ela pede, por favor, não me abandone à tragédia

e ela berra, igual a terra, quem me cuide (por favor!).

 

Mas feito o gato que espreita e desvia amiúde:

as palavras correm doidas cada vez que são lembradas

e se escodem nesse mundo, reformado em dureza

que petrifica os corações desprevenidos e amansados.

 

Os apertados ainda batem, entram em coro num trovão

que cai dos céus e enraíza a sinfonia que nos une.

Entre tanta reticência, quem questiona um mundo são,

se somos poucos na torcida ansiosa pelo caos?

 

Mas chegará esse dia, ouvi dizer que chegará

Um brinde ao novo que, à força, desde já se ressuscita

para rasgar esse  silêncio, cancerígeno, feito em sangue.

E mudar, fora do rio, a vida que nunca mais volta.

 

 

A loucura que nos une, fermenta dentro desse copo

E eu morri tanto, tantas vezes, que não podia estar mais sóbria

O futuro ainda é turvo, e isso é em tudo o nosso bem

Juntem as borras e as cartas, tudo e nada vai servir.

 

É que antes disso eu nasci, e desde lá muito mudou

eu li o sol, e vi a lua e tudo mais que permanece

Eu não prometo, eu não insisto. Da sua parte eu nada peço.

De minha parte, eu sou da água, não me maltrate o coração.

 

 

Quinta-feira, 23

A velha não mordeu o cachorro, mas às seis horas da segunda já não faria diferença. O jornal, a internet, o metrô, o desemprego, essa crise, esse homens, o Cunha, o custo do pão… Reblogar, compartilhar, enfezar-se antes dos outros, e essas bocas que só calam pra escutar outra tragédia. E repeti-la, piorada, à mais surda multidão. Que de tão surda, berra mais, e não há paz com tantos mísseis.
Não importa se é virtual essa janela que eu abro, eu abraço muita gente desejando estar errada. O mundo foi feito oval pra quicar sem ter problema, e eu acho que essa ladeira virou parte do meu corpo. Eu berraria “calem a boca” se isso fosse resolver. Mas caso eu grite, ao contrário, há um repertório de ofensas reservado pra quem pensa que tem chance vencer.
(Fora que a culpa é meio outra, fazer silêncio não tem por quê.)
Eles riem do meu prato, do que eu fiz com o meu cabelo, do que eu chamo de trabalho, desse corpo meio errado que não cabe no espelho. Não há lugar nesse planeta onde não me sinta acuada. Minhas roupas foram feitas pra eu me sentir desconfortável. A violência previamente eu já nasci para temer. E o que eu ouço para em mim – eu não tenho a quem correr.
Porque eles seguem na batalha e devastam por diversão cada metro desse mundo que dá sinais de desistência. Insaciáveis, não matam os outros porque as heranças não iriam pra si. E do meu quarto, bem trancado, eu me salvo do verão. Pois todo o resto me atinge forte, feito eu viesse por opção.
Quem tem, por favor, mostre um jeito de não enlouquecer nesse mundo. A linha do tempo que eu não criei tem nome em inglês e conta o tempo em segundos. As notícias se repetem, seu critério é o absurdo, frame a frame, corte seco, trilha tensa, berro mudo.
Quem tem, por favor, mostre um jeito de não enlouquecer nesse mundo. Antes que eu me feche pra sempre ou alguém resolva outra vez mudar de assunto.

Ciência

Que oitenta por cento do que se escreve é bobo. O restante, impublicável. A totalidade, diga-se, se acha muito séria (noventa e oito por cento sai de vadiagem…) Tem dois por cento, é verdade, que escapam num tiro de quem jurava, aos berros, que preferia morrer a matar. Melhor a dor que confessar! Ah tá… Atira-se todos os dias. Da janela pra fora. Dos olhos pra dentro. Toda solução escorre, resta saber se tarde ou cedo.

Eu, na verdade, não sei bem que motivo me faz disparar essa máquina. Não sei muito bem quantas vezes ainda devo pressionar com os sete dedos, que é só o que consigo, o meu alfabetogatilho. Eu, acho que já disse isso, sou dos covardes que não se suicidam, nem começam um novo vício. Nem se cuidam o suficiente pra viver mais do que o preciso. Eu, com certo talento, respiro. E encontro nesse recinto aquela tampa pequena, meio tosca e barulhenta que não deixa a panela explodir.

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Sempre-viva

Quem explica o mundo?

De que servem agora as nossas teorias?

E toda engenhoca que inventamos desde o relógio solar?

De que nos serviu o tempo que empurrou tantos ponteiros?

Se o que ganhamos é tão pouco e que nos roubam não cessa aumentar?

O rei está nu.

Mas a verdade é que nós também não vestimos traje de gala.

Nem uma vez em nossas vidas – de pernas tão curtas e caminhos tão longos.

Sem sono.

Quem vai segurar as pontas quando o primeiro de nós desistir de remar?

Eu vim com a missão de berrar a vitória.

De zelar a calma e sempre sempre sobreavisar.

Mas sempre que recobro o fôlego, novamente me afundam num tanque de sal e água.

Meu grito inaudível nasceu destinado a me sufocar.

As bolhas ao meu redor fervem dentro do meu sangue.

Minha tarefa impossível: manter o controle, confiar.

Zomba de mim, me desafia. Repete no espelho, o mundo nunca vai funcionar.

E eu sei.

Outro minuto, nada que aponte o norte.

Nem o dia do ano ou onde o ônibus deve parar.

Se não o todo do mundo, quem explica eu?

Que, outra vez no chão, considero sensato me levantar?

sempre-vivas