Ciência

Que oitenta por cento do que se escreve é bobo. O restante, impublicável. A totalidade, diga-se, se acha muito séria (noventa e oito por cento sai de vadiagem…) Tem dois por cento, é verdade, que escapam num tiro de quem jurava, aos berros, que preferia morrer a matar. Melhor a dor que confessar! Ah tá… Atira-se todos os dias. Da janela pra fora. Dos olhos pra dentro. Toda solução escorre, resta saber se tarde ou cedo.

Eu, na verdade, não sei bem que motivo me faz disparar essa máquina. Não sei muito bem quantas vezes ainda devo pressionar com os sete dedos, que é só o que consigo, o meu alfabetogatilho. Eu, acho que já disse isso, sou dos covardes que não se suicidam, nem começam um novo vício. Nem se cuidam o suficiente pra viver mais do que o preciso. Eu, com certo talento, respiro. E encontro nesse recinto aquela tampa pequena, meio tosca e barulhenta que não deixa a panela explodir.

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Sempre-viva

Quem explica o mundo?

De que servem agora as nossas teorias?

E toda engenhoca que inventamos desde o relógio solar?

De que nos serviu o tempo que empurrou tantos ponteiros?

Se o que ganhamos é tão pouco e que nos roubam não cessa aumentar?

O rei está nu.

Mas a verdade é que nós também não vestimos traje de gala.

Nem uma vez em nossas vidas – de pernas tão curtas e caminhos tão longos.

Sem sono.

Quem vai segurar as pontas quando o primeiro de nós desistir de remar?

Eu vim com a missão de berrar a vitória.

De zelar a calma e sempre sempre sobreavisar.

Mas sempre que recobro o fôlego, novamente me afundam num tanque de sal e água.

Meu grito inaudível nasceu destinado a me sufocar.

As bolhas ao meu redor fervem dentro do meu sangue.

Minha tarefa impossível: manter o controle, confiar.

Zomba de mim, me desafia. Repete no espelho, o mundo nunca vai funcionar.

E eu sei.

Outro minuto, nada que aponte o norte.

Nem o dia do ano ou onde o ônibus deve parar.

Se não o todo do mundo, quem explica eu?

Que, outra vez no chão, considero sensato me levantar?

sempre-vivas

Beijo em prece

Tenho beijos no bolso, na pele no osso, na plebe no povo,
as pernas de um polvo são meus beijos por dar.
Se chegam a jato, se são brisa do mar, se flutuam ou voam
As gaivotas do mundo são meu beijo a buscar

A suspeita do destino

Que é ser engolida pela turbina da vida,
Ou, por outro lado, arriscar mergulhar
Que é, à diante, reconhecer o seu bando
E na pressa ou no pranto, a praia encontrar .

No suor das testas do mundo
Dentro de abraços um pouco mais fundos
Nos dias de agenda, não mais que um segundo
O resto é pausa pra respirar

Entre o beijo engolido, o escarrado e o cuspido
O calado e o aflito (e o beijo desejo que não pode beijar)

No meio do céu

Sob o sol de fevereiro
Instinto de pássaro voa.
Beijo às vezes dança,
n’outras prefere calor calar.

Mas eu, que trago comigo todos os beijos do mundo
Não os meus, que gastei cedo, já faz muito
(pois que nunca fui de economizar)
agora, tendo voado um milhão de segundos,
Só guardo pra sempre uns beijos mais vagabundos
E algum espaço pros outros que, juro, ainda hão de chegar.

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Imagem sem créditos. Encontrada em https://br.pinterest.com/pin/42573158953890540/ 

Dia 8 de Março, Adelci presente

A tia-avó que eu não conheci é, na verdade, mais uma das minhas irmãs.

Hoje é dia internacional da mulher. Eu pensei em pesquisar de novo a origem da data, as propagandas vergonhosas, as promoções piores ainda, os maridos descarados e sem uma gota de vergonha na cara, os dados das delegacias de mulher, enfim… Todas essas informações tenebrosas que seriam suficientes pra gente pelo menos pensar duas vezes antes de associar essa data a uma caixa de bombom e um buquê de flores. (Ou um almoço em família feito por ela, a mulher).

Mas não. Em vez de reproduzir todas essas informações facilmente encontradas no Google, eu decidi contar uma história que não está registrada em lugar nenhum, embora se repita tanto. História da minha família, que é cheia de mulheres que são fortes porque foi só essa a opção que lhes restou. Foi sempre isso que a vida lhes exigiu.

Ontem, dia 7 de março, minha avó Ozelina veio junto dos filhos jantar na minha casa. Enquanto eu cozinhava, ela, sentada à mesa, descascava uns dentes de alho pra me ajudar e contava histórias que eu nunca tinha escutado.

Dona Ozelina (a Zéli) saiu da Bahia onde deixou enterrada uma irmã de sangue.  No interior do interior, sua irmã morreu provavelmente de cólica menstrual, por ser esse um problema considerado “não muito sério”. As cólicas fortes são, ainda hoje, companheiras pontuais das mulheres da família Faria. E essa noção de que cólica é uma frescura de menina também não mudou tanto assim desde aqueles tempos na Bahia. A medicina, pra nossa sorte, é que deu alguns passos a mais. Pena não podermos dizer o mesmo sobre o trabalho, que devemos frequentar com ou sem essa dor, e sobre os colegas que no geral não se incomodam a não ser pra fazer chacota…

Isso já seria uma senhora história triste. Minha avó tinha uns 6 anos, e se lembra de ver o caixão sangrar. Mas a história que eu quero contar é ainda mais triste, sobre outra tia-avó que eu não tive chance de conhecer. Adelci.

Adelci era irmã de criação da minha avó. Veio com a família quando todos tomaram conhecimento do milagre do Paraná: corria em Mairi, cidade em que moravam, que aqui no sul “se puxava dinheiro de rastelo”. Minha família nunca foi gananciosa, era uma questão de necessidade. E a vida de Adelci, no meio dessa busca desesperada, não por dinheiro, mas por trabalho, foi seguidamente marcada pelo ódio histórico às mulheres, por essa noção de que nós não valemos grande coisa.

Começou antes dela (como, na verdade, começou muito antes de todas nós). A mãe de Adelci, irmã da minha bisavó, teve seu casamento arranjado com um homem “castrado”, palavras de minha avó. Esse homem arranjou o casamento com o meu tataravô, porque precisava de uma mulher “que o zelasse”, e nada mais. Até minha avó, uma senhora, entende como isso era absurdo. Mas foi assim com a mãe de Adelci, exigiu-se que ela vivesse o absurdo. E sem dizer uma só palavra, casou-se.

Com o tempo, apareceu um rapaz por quem a mãe de Adelci ficou interessada. E ele por ela. Era o primo do primo de um primo, me parece, e foi dessa união que nasceu Adelci.

Não é preciso dizer como a vida das duas, mãe e filha, estaria marcada desde então. O marido traído agrediu severamente sua esposa, que teve de sair de casa “com uma facada no bucho”, e foi obrigada a voltar para a casa dos pais carregando no ventre essas duas “vergonhas”. A filha e o corte.

Passado um tempo do nascimento de Adelci, o marido traído resolveu que aceitaria a esposa novamente. Mas só ela. Não a filha, fruto da traição. Assim, outra vez sem que a mãe de Adelci fosse consultada, seu pai convocou uma reunião entre a família e decidiu que minha bisavó, Enedina (Dindinha), tia de Adelci, ficaria responsável por criar a menina.

Mãe e filha foram separadas, ainda na Bahia. E o desligamento total veio mais tarde. Adelci se tornou irmã de minha avó e veio para o Paraná, tendo visto sua mãe raras vezes depois disso.

Aos doze anos, Adelci ficou “formada”. Era uma moça muito bonita, dessas que chamavam atenção. Nessa época, minha bisavó, Dindinha, notou algo de diferente na menina. Um estômago “muito alto”, um enjôo fora do comum, deveria ir ao médico…

Ao 12 anos, a menina Adelci estava grávida. De um homem já casado e pai de família.

Se hoje prender pedófilos e estupradores é raro, você imagine naquele tempo… Adelci foi chamada, pela própria mãe de criação, de safada, de sem vergonha. Meu bisavô foi tirar satisfação com o pai da criança que estava por vir, e o que ouviu? Que era ela, uma menina de 12 anos, a culpada. (Como eu disse, tudo isso começou e perdura desde muito antes de nós.)

Ficou decidido, nessa conversa de homens, que ele teria que “aproveitar” Adelci. Um termo, graças à deusa, já abolido, que significa que eles se casariam…

Segundo minha avó, uma vez obrigada a se casar, Adelci nunca mais cozinhou, só vivia suja aquela que havia sido uma moça tão bonita e caprichosa, não fazia nada para o marido. Nem para si mesma.

Minha mãe, entretanto, lembra que essa sua tia algumas vezes capturava vagalumes e guardava em um pote…

Adelci, mãe aos 12 anos, foi carregada para o Mato Grosso e lá morreu enforcada num suposto suicídio. A família nunca foi avisada e não se sabe a quem as duas meninas de Adelci foram entregues. Mais tarde, seu marido contou a alguém que ela havia se suicidado e, mais tarde ainda, ele mesmo foi preso e solto, nessa que é uma das histórias que minha avó, também muito menina, acompanhou sendo a mais velha da família, sem nunca entender.

Esse dia 8 de março é dia de engolir a seco essa história que também fala um pouco de como eu mesma vim ao mundo. Com essa e tantas outras marcadas no passado.

Se não tivesse sido morta pelo marido (porque, suicídio ou não, o culpado da morte de Adelci foi ele), ela seria hoje minha tia-avó. Ainda assim, o que eu sinto nesse 8 de março é que perdi, não uma ancestral, mas uma irmã. Como tantas outras que a gente perde arrancadas de nós. Adelci, como sua mãe, não pôde nunca falar. Como sua mãe, foi recriminada por fazer sexo e, no caso específico de Elci, esse sexo de que é culpada foi, na verdade, um estupro.

Pra minha felicidade, na minha família essas histórias vêm acontecendo um pouco menos com o tempo. Mas todas nós continuamos escutando, a essas e muitas outras, sempre como um alerta e como um exemplo. Seja forte. Resista. O pior pode, sim, acontecer. Não ceda.

Ser Adelci não deve ter sido tarefa fácil, e ser mãe de Adelci, e mãe da mãe de Adelci… Ser filha de Adelci, então, nós nunca saberemos como é, pois não sabemos sequer onde elas estão.

Mas eu sei bem como é sobreviver como Ozelina e Miranilde e Maria José e Arleide e Letícia e Isabela (e Flávias, e Anas, e Lucélias, e Jaquelines e tantas e tantas de nós) que temos, antes de tudo, essa obrigação, de resistir e sobreviver. De não calar, para lembrar tantas Adelcis que viveram antes de nós e vivem hoje ainda obrigadas só a aceitar: um homem casado que lhe rouba os vagalumes, um homem castrado que lhe rouba a filha e as netas. O machismo, afinal, que nos rouba a vida.

8 de março não é dia de flores, almoços ou bombons. E nem é dia de dar parabéns à Adelci ou a qualquer mulher que suporta, por pura falta de opção, a sua condição. Hoje é dia de desejar que Adelci, e tantas outras, não fossem obrigadas a só resistir resistir resistir, mas que pudessem, em vez disso, viver o suficiente pra contarem elas mesmas as suas próprias histórias.

Dia 8 de março. Adelci presente!

Twin Sisters - Chidi Okoye
Twin Sisters – Chidi Okoye

Longe

(04/11/2014

)unknow

Sonho os milímetros da tua boca
Perto
que paira diante dos meu olhos
Perto
Desvia pela esquerda e encontra meu ouvido
Diz
que prefere, na verdade, o sabor da minha nuca
Perto

Me abre o zíper do vestido
Perto
Com a força de meio pensamento
Esperto
Me puxa pro colo e pra dentro do abraço
Aperto
Roço o peito e não está aqui

Des-perto

Riscos

(27/11/2014)

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Traço amor
desenho rima
você por cima
do meu papel

Todos os postes
te iluminam
se eu te copio
sou infiel

pois me confunde
o teu botão
fora de casa
dizendo sim

extraio a tinta
da tua pele
e molho a pena
que sinto de mim.

Que de abstrata
mancho o concreto
berro o soneto
e gozo no fim.

sobre o papel
de personagem
que sem coragem
parte de mim

E atravessa
esse poeta
que se eu minto
bem mais me entrega

Nesse rabisco
em verso e métrica
que me revela
– em retrato seu.

A sina da cidade

(08/10/2014)

Dan-ah Kim
Dan-ah Kim

Debaixo da lua, um teto. De baixo do teto, chão. De baixo do chão talvez passem por cima de mim. Antes disso, não.

Atesto que nasci aqui. Mas a esta terra não pertenço. Sou dessa cidade que é cidade porque tem nome, porque aqui morreram, sobre a qual enriqueceram e onde tantos amores custaram a passar. Porque nunca tiveram tempo…

Sou dessa cidade cujo nome é uma ironia. Onde o calor escalda, mas de noite esfria. E onde tanta gente morre e nasce a todo santo e pagão dia. Onde tem gente que mora e morre na mesma rua por onde outra gente anda de Porsche. (Gente que não tem nem nome – chamam de pobre.)

Pois é, eu sou dessa cidade… Onde as ruas se espremem, mas não tem lugar pra árvore e onde o lago e os ônibus só encolhem com o tempo. Aqui, tudo quanto pode vira shopping. Nessa cidade não tem praça, mas sobra estacionamento…

O sino de toda hora diz que já é mais-tarde-que-antes na cidade onde eu nasci. Olho pela janela do carro e vejo meu passado acenando nos bairros onde vivi (um amor esquecido na zona leste, uma casa de vidro apresentada na zona sul, aulas cabuladas a pé no colégio do centro, leituras esquecidas sob tanto céu azul).

Quando vejo – porque vejo – isso passar, entendo que minha cidade pessoal vive se esquivando dessa cidade de concreto – e não lhe cabe mais, já não pode enraizar. As lágrimas que derramo brotam dos olhos da cidade, que chora, na verdade, porque sabe que nessa estação só eu posso partir. Esse choro que é choro por ela, também é choro chorado por mim que, embora nascida aqui, nunca fui muito sua filha. Não posso nunca lhe chamar de família. É choro porque nós duas, espremidas por essas fronteiras, sufocadas por esses prédios, afogadas nessa poeira, não tivemos tempo sequer de nos conhecer, não fizemos mais que respirar e amanhecer. Não soubemos nos amar. E a gente tentou muito, mas não descobrimos nem por onde começar…

O sino resiste porque alguém até hoje puxa a corda hora em hora, todo dia, no alto da catedral. O som ecoado batizou a chegada do meu avô mineiro, da minha avó baiana, da minha bisa índia, da outra avó italiana. Mas hoje caça o meu tímpano, me toca. Dizendo, embora meu passado só tenha feito desembarcar, que estou uma badalada mais próxima do momento de dar o fora. E que, tendo marcado a exata hora em que minha mãe me deu a essa luz, me conhece o suficiente para afirmar: que como um fim e um começo, essa menina e essa cidade estão coladas uma à outra, mas nunca caberão no mesmo lugar…